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22 julho 2011

Lembranças escolares



As vezes acho incrível como as lembranças do meu tempo de escola simplesmente afloram vindas do nada e fazem-me perceber algumas das minhas atitudes até hoje. Estudei 10 anos em um colégio católico, o que significava seguir regras que eu nunca entendi muito bem para que serviam e que, de fato, nunca me preparou para a vida. Eu tinha aulas de religião das quais eu passava grande parte do tempo a trocar mensagens com minha amiga dos tempos de escola, Jú. Pior era sermos avaliados nessa "disciplina", assim como aulas de SOE que eu unicamente aprendi que era um Serviço de Orientação Educacional (e acredito até hoje que as únicas pessoas que devem saber para que servem as aulas de SOE são as próprias professoras e olhe lá). O colégio que estudei sempre teve grande nome. Mas não foi lá que, infelizmente, eu aprendi e desenvolvi o que era mais importante: ser uma pessoa com princípios. Naquela altura não me causava estranheza que num colégio com mais de mil alunos, nem 1% eram de afro-descendentes. Não mostrei minha indignação quando uma ex-colega de turma foi acusada de ser homossexual por andar de mãos dadas com a amiga e o colégio "convidou-a a se retirar" e ir para um outro colégio mais liberal, além de aconselha-la a procurar um psicólogo. Algum tempo depois ela estava grávida  e prestes a se casar com um outro colega de turma. No colégio tudo tinha que ser perfeito e nada "anormal".

As vezes lembro de coisas que acabo por comentar com minha amiga Jú e ela fica impressionada com quem ou do quê eu me lembro. Lembro-me da minha 1ª visita à escola no ano de 1992. Quando fiquei terrivelmente aterrorizada por deixar uma caixinha em formato de maçã de clips coloridos de plástico (que foi febre na época) em cima de um muro enquanto meu pai fazia a inscrição da minha irmã no maternal. Fui dar uma volta pela escola e quando voltei a caixinha já não estava lá. Tremi. Não por tê-los perdido, mas por saber que teria que dar satisfações ao meu pai de onde eles estavam, justamente por ter deixado alguns minutos antes essa mesma caixinha de clips algures e meu pai ter pedido para ter mais atenção. Procurei, procurei e nada de os encontrar. Meu pai viu minha inquietação e perguntou-me o que se passava e eu só a dizer "estou procurando algo". Depois dele insistir algumas vezes (e por eu ter amor aos meus dentes), resolvi contar a verdade, que tinha perdido a caixinha. Após uma bela e longa bronca, ele tira a caixinha do bolso, entrega-me e diz para eu sempre ter cuidado onde deixo minhas coisas. A partir dali, desenvolvi uma pequena paranóia a isso. Passei a revistar mil vezes qualquer lugar que estava para ver se não tinha esquecido de nada, deixava minhas coisas sempre juntas e fazia notas mentais do que levava comigo. Isso foi um martírio quando se tinha a cabeça nas nuvens, onde o que importava era tirar notas boas, não me envolver em brigas para meus pais nunca precisarem ir ao colégio, ver a vida sentimental aflorar e o corpo a modificar-se. As vezes que perdi algo, martirizava-me, punia-me para que não voltasse a acontecer. O sentimento era de ter perdido algo valioso, mesmo que fosse uma caneta bic.
Nunca fui uma aluna nota A, muito menos B talvez C. Odiava estudar porque sabia que não serviria para nada pois a escola nos preparava para as provas, não para a vida. Ter DDA, sigla nova que surgiu há uns tempos junto do bullying, mas que serviria para mim naquela altura, não era compreendida e desculpada como é hoje. Ter qualquer Distúrbio de Déficit de Atenção era porque eu era malandra, não prestava atenção na aula e não estudava. Não era verdade. Por mais que as notas insistissem em dizer o contrário, eu tentava. E isso eu carreguei para sempre comigo.

Foi nessa escola também o que aprendi o que era indiferença. Sentia-a com relação às meninas para comigo. Quando criança era muito magra. Tão magra que tinha vergonha do meu corpo (como a maioria nessa idade tem). Não tirava notas boas para ser da turma dos nerds, não tinha corpo escultural para ser da turma das "populares", não fazia parte do pessoal "cult". Era da turma do "outros". Conseguia, assim, andar por esses grupinhos sem necessariamente participar de nenhum. Desde o meu 4º ano, fomos eu e Jú, Jú e eu. Por mais que, hora ou outra, conhecêssemos alguma menina nova e lanchássemos juntas, a nossa dupla nunca foi desfeita. Desde sempre lembro dos meus intervalos na escola serem passados na biblioteca. Gostava muito de ler, mas não gostava de estudar.

Qual o motivo dessas memórias? Simples.  Isso para chegar à 6ª série, em 98, da qual recordei agora de uma professora de matemática, que, durante a aula de matemática, passou-nos um filme chamado "Filhos do Paraíso" (Children of Heaven). Lembro-me como se fosse ontem ela dizer para assistirmos de forma atenta ao filme e que, mesmo que não entendêssemos o real significado dele, que voltássemos a assisti-lo quando adulto para termos outra percepção. Assisti com a ´tal forma atenta'. Lembrava-me que era um filme de um garoto que perdia os sapatos da irmã e passava o filme em busca dos mesmos. Sempre fiquei com essa ideia de que deveria assistir o filme novamente. Eis que 13 anos depois, há algumas semanas, lembrei de procurá-lo e ver se minha percepção das coisas tinha sido alterada. É com pesar que digo que sim. Digo com pesar porque ao longo do filme, fui constatando o quanto deixei da minha inocência para trás e malícia que ganhei em troca disso. De fato tentei assistir ao filme com o mesmo olhar, mas fui traída pelo meu próprio pensamento. A cada minuto do filme fui tendo mais certeza de que esse foi um ensinamento válido que uma professora de matemática deu. Nada de fórmulas, equações. Simples observação de vida. Dela. Minha.


Peguei-me a pensar em tudo o que se passou desde lá. Minha mudança para uma outra escola que eu mesma escolhi, novos amigos, novas visões. Para essa 2ª escola fui em 2003. Lá tive a chance de "começar de novo inteligentemente". Mostrar quem eu era, ser quem eu era. Nesse colégio, público, aprendi que o mundo é corrupto. Pela 1ª vez vi alunos bêbados, alunos drogados, alunas prostitutas, alunas grávidas, alunos que carregavam armas, alunos que vendiam drogas. Vi com meus próprios olhos alunos a subornarem professores, professores a assediarem sexualmente e moralmente alunos. Vi de tudo. Aprendi. Guardei.


Sempre tive um ar responsável, coisa que de fato sempre fui. Por isso, nessa nova escola consegui ser líder de turma, participei de um grêmio, fiz parte do teatro, fui assistente de educação física. Conquistei pessoas, conquistei amigos, conquistei respeito. Respeito do qual nunca senti o sabor na escola particular. Vi minha vida dar um giro de 180º e  nunca esqueci da observação que a professora de matemática outrora dissera.
Válida. Talvez a única válida. Imaginem o quanto podemos mudar e mudamos com simples gestos (como o da caixinha de clips) ou com uma simples palavra dita. O quanto influenciamos uma vida de uma pessoa. O poder que temos para arruiná-la ou florescê-la. Tenho certeza que minha professora de matemática, quando pediu-nos que prestasse atenção, não poderia supor que eu fosse mentalizar, raciocinar e principalmente escrever sobre isso tanto tempo depois. Ela não soube a influência que foi para mim com uma simples frase. Talvez nunca saberá.

Com certa nostalgia daqueles tempos (que não foram nada fáceis) termino aqui minha lembrança deste fato em especial. Este relato pode mudar a percepção de algumas pessoas ou cair no esquecimento das demais. Poderia  divagar mais sobre o assunto, mas ficará para daqui a mais 13 anos.

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