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11 junho 2011

Relatos íntimos em terras lusitanas

  É incrível a mentalidade de algumas pessoas que não tem o menor contato comigo ressurgirem do além
somente para andar a matar a curiosidade a respeito de como minha vida está aqui em Portugal. Depois do "oi" tradicional, a pergunta é sempre a mesma: "E então, já ficou rica?" Eu sempre respondo "Claro que sim! Já comprei 2 iates, 5 casas e uns tantos carros importados pra coleção!" O que se passa na cabeça dessas pessoas que acham que imigrar é fácil? Acho que não passam nada! Passa vento, só pode! Acham que é só estar em solo não-brasileiro para acharem que ganhamos na mega-sena (ou no euro-milhões, como queiram..). Como se um bilhete de avião viesse sempre premiado com bons empregos, boa moradia.. bons amigos. Isso NÃO é verdade. Aqui, já mudei de casa 8 vezes. Empregos então, nem se fala. Já quebrei a cara com tantas pessoas aqui que nem contabilizo mais. 


  As vezes fico no questionamento do motivo pela qual a raça brasileira é tão desunida. Como se fosse já fácil abrir mão de tudo no Brasil (como foi o meu caso com relação à família, amigos, emprego, amor, minha casa, minha cadelinha Bia, minha comodidade, meu conforto, minha base, meu porto-seguro). Aqui, a comunidade cigana é mais unida do que qualquer coisa. Parece uma grande família. Se a frase "um por todos e todos por um" existe, foi feita por e para eles. Não discuto a índole, mas que são unidos, ninguém que ouse negar! Outra comunidade é a africana. Menos, mas ainda assim se ajudam no que podem. Entristece-me saber que aqui os brasileiros não são assim. São despegados. Lamento dizer que os que mais me ferraram a vida foram meus próprios conterrâneos. O motivo? Nem eu sei. Sempre tão preocupados em mostrar o que são, aonde chegaram, o que já conseguiram.. É fato que eu evito ir à lugares denominados "brasileiros" aqui. Sempre acaba em briga. Sempre tem SEF no meio. Prefiro manter-me no meu canto, reclusa, a economizar nas energias pra aguentar as 45h de trabalho e as 24h de faculdade semanais e outras coisas que precisam de tempo e dedicação. É preconceito? Pode ser. Mas prefiro evitar.

  Óbvio que não sou exemplo nenhum de ser humano solidário e nem quero mostrar que o sou ou deixo de ser. Tenho consciência que eu não piso na cabeça de ninguém pra fazer de degrau assim como aconteceu comigo diversas vezes. Houve uma época que minha adaptação foi mesmo dificultada por terem uma ideia de que poderiam colocar-me no "mesmo saco" que algumas brasileiras cá. Solteira + nova + brasileira + ilegal = puta, com certeza. Ainda é difícil tirar esse conceito das pessoas. Hoje em dia, parei de lutar para que as pessoas não confundam que nacionalidade não é sinônimo de caráter. Por diversas vezes, a trabalhar por 11h em pé no restaurante, recebia convites para sair, "viajar" e até convites para casar e, assim, legalizar-me mais rápido, seja em troca de dinheiro, seja em troca de "nada" (que provavelmente meu pseudo-marido viria cobrar o "nada" depois). O fato é que por diversas vezes tive que ir contra a lei do "o cliente tem sempre razão" e dizer coisas desagradáveis como "se eu quisesse uma vida fácil aqui, não estaria a trabalhar atrás de um balcão por 11h de pé a ganhar miséria. Vá procurar meninas nos locais certos, que aqui não é um deles. Ali fora está escrito café/restaurante e não puteiro". Peço desculpas à quem se sentir ofendido, ao meu pai e à minha mãe por lerem coisas desagradáveis que eu nunca lhes contei, mas é assim e isso não vai desaparecer ou mudar por eu não ter dito na época. Imagino a quantidade de vezes que pessoas que, como eu, estão a trabalhar arduamente, estudar e correr atrás de um futuro melhor ter que escutar coisas como essas.

  Houve uma vez que senti-me covardemente encurralada. Fui receber o pagamento de um dia de exploração (porque não aguentei mais do que as 10h a fazer meu serviço e dos outros que se aproveitaram por ser meu 1º dia para explorarem até o último fio de cabelo). O dono do café pagou-me e veio com a história de que queria ser meu amigo para o que desse e viesse. Quando percebi do que a amizade se baseava, tratei de sumir logo dali. Eis que o dono do café, um senhor nos seus 65 anos, gordo, nojento, veio para cima da minha pessoa a tentar agarrar-me. Pega totalmente desprevenida pela situação, não o chutei, estapeei, gritei, como seria uma coisa óbvia e esperada de ser feita por mim. Resignei-me a fugir dele enquanto esse mesmo senhor tentava encurralar-me como uma barata no canto da parede. Consegui passar por debaixo dos braços desse ser que não tem nada de humano e subir as escadas aos tropeços e chegar à rua e explodir-me em lágrimas tamanho abuso e humilhação. O que fazer em uma cena dessas? Chamar a polícia? Eu estava ilegal! Seria deportada! Seria mesmo? Não sei! Melhor não arriscar! Contratar alguém para espancar esse velho até ele aprender a não tratar as pessoas dessa forma? Mas quem? Não sei. Não conheço ninguém! Minha última opção foi desabafar com meu porto-seguro aqui enquanto ficava cada vez mais inchada de tanto chorar. Eu fico a imaginar quantas baratinhas não conseguiram sair ilesas.. Quantas baratinhas aceitaram ser amigas desse fulano. Quantas baratinhas por precisarem do emprego, admitirem levar desaforo pra casa para não ficarem sem emprego.
 
  É fácil imaginar que quem vem tentar algo em outro país, outra cultura é fácil. Fácil para quem pensa isso. Para quem vive isso, nada tem de fácil. As inúmeras vezes que procurei apartamento para alugar, era só o outro lado da linha constatar meu português brasileiro para anunciar logo que o apartamento tinha mesmo acabado de ser alugado. Estranho é que, 5 minutos depois, pedia para um nativo lusitano ligar por mim e ver que o apartamento ainda estava disponível. É preconceito sim. Sempre houve. O que me alegra e ver que a nova geração, até seus 25 anos, já não pensa assim. Também é fato que as pessoas que mais me ajudaram são portuguesas. Eu fui amorosamente acolhida em uma típica família portuguesa que, até então, não tinha tido experiências "familiares" com outras culturas. Eu cheguei onde cheguei por eles. Porque sempre estiveram do meu lado sem nem me conhecerem direito. Sempre deram-me suporte e foram para mim a família que eu não tenho aqui. Sempre acreditaram no meu caráter e deram-me uma chance para mostrar quem sou e a que vim! É à eles que agradeço: a família Brito e a família Pinto. Meu muito muito muito obrigada! Ninguém fez por mim o que vocês fizeram e eu nunca vou esquecer disso!

  Aos que não leram até o final, mas já viram as fotos de duas simpáticas cadelinhas no fim do post, apresento-lhes meus 2 iates, 5 casas e uns tantos carros importados pra coleção. Meus tesouros: Chérie e Meggie. Elas sim são a maior riqueza que tenho aqui. Cada vez mais levo a crer que não fui eu que as adotei. Foram elas que me adotaram. Tanta dedicação delas para comigo.. Tanto carinho.. Tanto afeto. É a minha maior fonte de energias. É sempre tão bom chegar em casa, depois de um cansativo expediente e vê-las sempre aos pulinhos quando chego em casa a abanarem o rabo como se eu tivesse voltado de uma longa viagem. Não importa para elas o dinheiro que tenho no banco (ou a falta dele), se dou ou não a melhor ração para elas.. se estou mal vestida.. Importa-lhes somente que eu lhes dê atenção e carinho. Bem dizem que o cão é o melhor amigo do homem. No meu caso, meus dois tesouros são minhas melhores amigas e acompanhar-me-ão até o fim.




















4 comentários:

  1. Zacarias11/6/11

    Palavras para quê, mais directo e verdadeiro impossível

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  2. Raquel Camara21/6/11

    Admiro imenso a tua coragem e o teu lado de lutadora. conheço-te a pouco tempo, mas digo-te desde já, estou orgulhosa por ter-te conhecido. Não tenho nada contra os brasileiros, muito pelo contrario, gosto imenso do povo brasileiro, tal como te disse sao super animados, fazem a festa onde for preciso e com o que houver. Gostava imenso de conseguir metade daquilo que tu ja conseguiste. és um exemplo de uma grande mulher lutadora. essas duas bonequitas que ai tens sao o maximo, fiquei apaixonada por elas. sao super fofas e nota se perfeitamente o quanto gostam de ti e tu delas. Parabens porquita por seres como és =p. beijinho grande.

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  3. Ola...que bom saber que esse temperamento de lutadora continua a existir dentro dessa cabecinha que pensa por si. Fico contente em saber noticias tuas. Surpreendido talvez..por ti claro, não sobre o que contas que sempre que tive oportunidade te alertei para o perigo da aventura de viajar para outras paragens em busca de uma vida melhor sem ter uma mão amiga que proteja ou pelo menos encaminhe.Lamento não te ter podido ajudar mais na minha terra mas como sabes a vida para mim tambem deu uma volta de 360 graus. Tenho a certeza, pelo que conhço de ti sairás vencedora dessa tua caminhada. Um beijão do Adriano

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  4. Olá Adriano! Meu temperamento está cada vez mais forte. São muitos os desafios por aqui e realmente é preciso ter bom senso e nunca desistir. Com calma e precaução vou conseguindo obter meu "lugar ao sol". Espero que para você aí, na minha terrinha, também esteja a correr da melhor forma possível! Beijos e felicidades!

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