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06 maio 2011

Eu e as limpezas

Tenho uma terrível mania: limpezas.
Não as tradicionais com cloro, água, sabão e vassouras. São limpezas de marcos que dão-me sensações momentâneas de confiança..
Sempre que escrevo uma mensagem por telefone, apago-a. Se recebo, leio e apago (a não ser que seja uma muito sentimental ou com instruções - que após seguir, apago também).
Faço chamadas, apago. Recebo, apago. Envio e recebo e-mails. Alguns pouquíssimos ficam -  separados por temas. O resto, lixo. Cartas, guardo-as por algum tempo, depois, dependendo da convivência (ou não), jogo fora. O tempo todo a limpar os cookies do pc. A lixeira virtual então, é quase TOC.

Já tentei arranjar alguma explicação para tamanha obsessão. Livro-me de tudo. O tempo todo. Organizo tudo, o tempo todo. Quem vê minha agenda, nota buracos. As folhas de datas passadas já foram para o lixo. Não, não deve ser por ser karma de virginianos, porque conheço muitos que acabam perdidos em suas próprias bagunças e depois têm que mandar avisos de fumaça para serem localizados a meio de tanta tralha.

Já tentei jogar fora pessoas que não fazem mais parte da minha vida. Algumas consegui, outras grudaram como nódoa, mas que aos poucos fui-me livrando. Passo o tempo todo a organizar. Organizo-me para não desorganizar a minha organização. Separo as roupas pretas das coloridas no armário. Os sapatos, por tipos. Separo a briga das minhas cadelas.

No Brasil, eu tenho uma baú. Nesse baú, há cartas. Cartas enviadas por diferentes pessoas, diferentes datas. Estão toscamente separadas por remetente e por ordem cronológica. Tinha outra caixa, onde guardava pequenas lembranças amorosas. 1º papel de bala com fulano, cartões de telefone que usei com beltrano, bilhete de cinema com sicrano.. (não, não adianta mais procurar, porque fiz uma linda fogueira na casa da minha amiga da última vez que estive no Brasil). Limpei a caixa.

Sinto-me perdida em tanta informação. No mundo atual é impossível estar atualizado sobre qualquer tema. Qualquer informação que chegue até nós, já está desatualizada. Somos seres alienados da nossa própria alienação. Preciso organizar, preciso limpar para arranjar espaço para novas informações. O cérebro tem capacidade para armazenar muita coisa e tal como a memória de um computador, nunca consegue-se utilizar o seu máximo, por mais limpezas de disco e desfragmentações que façamos. Onde há uma desfragmentador que dê espaço no cérebro?

Preciso que algum técnico ajude-me. Não sei nada sobre computadores. Não sei nada sobre cérebros. Então: Como limpa-se a memória?

5 comentários:

  1. Retratos de nadie
    La soledad se puebla de fantasmas de papel y de paja, de retratos de nadie, de láminas metálicas, de páginas desnudas donde nada está escrito. El frío arrasa la memoria y ya empezamos a no ser, el frío que desciende del lado más aciago de la noche donde se inicia la consumación. Y no podemos recordar a quién habíamos amado. Pregunto: - ¿dónde estás? Pero ni siquiera yo mismo sabría quién puede responder. Llamo a todas las puertas. La única que se abre es la sola que no conoce el perdón.

    José Ángel Valente. Fragmentos de un libro futuro

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  2. Ella se desnuda en el paraíso de su memoria
    Ella desconoce el feroz destino de sus visiones
    Ella tiene miedo de no saber nombrar lo que no existe

    Alejandra Pizarnik

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  3. Territorios

    Los dominios de la memoria inmensos e inconsistentes. Incontables en mi cuerpo los días y las noches. Territorio de mi despertar cada mañana. Mis dedos sobre el teclado llenándome de frases que se hicieron conmigo.

    (Aurora)

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  4. Eu nunca soube o qué fazer con as minhas recordações. As vezes tambén pergunto que é o que se faz com as lembranças. Ninguén respondeu-me aínda.

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  5. A informação chega. Para que nova informação se possa armazenar, é preciso que se limpe de forma a arranjar-se espaço. E assim sucessivamente. Pergunto-me então para que serviu o que se passou e que agora se tenta apagar, limpar, reciclar? Serviu na altura em que serviu, certo? Nesse mesmo instante. Fez sentido? Foi só ocupação?

    Eu não sei o que se deve fazer às lembranças. Penso, de facto, que por mais se apaguem registos físicos da mesmas, na essência da vida elas mantêm-se. Parece que esse baú de memória da nossa mente é extensível, é um autêntico Universo.

    Pessoalmente guardo algumas coisas. Não todas, nem de toda a gente. Também não vivo em função do passado. Há uns tempos enquanto fazia mudanças de computadores e afins, reorganizei fotos tiradas. Apaguei algumas coisas, deixei outras tantas. De pessoas que de certa forma, mas não tão marcante, fizeram parte da minha vida, se tinha quatro fotos, apaguei três. Já de pessoas que me foram (e são) mais importantes, deixei estar. No entanto, desde que reorganizei e guardei tudo isso, não olhei mais, mas deixei que lá ficassem não me vá apetecer recordar, sem mágoa nem tanta saudade, algumas caras.

    Presentes, cartas, bilhetinhos e coisas do género... algumas já não tenho. Outras guardo. Mas há coisas das quais faço questão que me acompanhem esteja eu aqui ou noutro planeta e tem outras que, embora eu as mantenha, sei e sinto que hão-de se perder com o tempo: contudo não sou eu que as vou deitar fora. Por enquanto não me incomodam, nem me ocupam nem desarrumam o espaço.

    O passado é isso mesmo: passado.
    Mas uma coisa é viver em função dele, outra é aprender com ele. Ter a noção de que se viveu para além do que se vive agora, embora o agora seja mais importante.
    Eu não tenho essa necessidade constante de actualização. Aliás, eu tenho, mas entre uma e outra necessidade com a qual não consigo lidar realmente, aprendi a lidar à minha maneira. No fundo nem sei se aprendi, apenas vou lidando nem eu sei como.

    Já diria Friedrich Nietzsche: "A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez."

    Acho que quem tem a capacidade, se é que existe, de esquecer completamente o que passou de facto aproveita bem a vida... no momento. Porque depois eu ponho a questão: Ao chegarmos ao final, seja ele qual for, então alguma coisa valeu a pena? Viveu-se?
    Nesse sentido acho que tudo não passa de uma ocupação, uma distração momentânea sem sentido enquanto passamos por esta coisa chamada vida. E é se passamos realmente.

    Tanta coisa passa pela cabeça, tanta teoria, tanta conclusão a que chego (conclusões até opostas!), e no fundo chego a conclusão nenhuma. Mas cada um vai lidando com as coisas à sua maneira, mesmo que não saiba como lidar, certo?

    .o/

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